Tulsa King: Dwight Manfredi e a Arte da Resiliência Cognitiva
- Elisa Delatore
- 29 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Uma série para assistir, relaxar e aprender

Se você fosse jogado em um mundo onde o dinheiro é invisível, os carros são chamados por um pequeno aparelho em seu bolso e as pessoas fumam maconha legalizada em lojas que parecem farmácias de luxo, você entraria em colapso ou abriria um negócio?
No primeiro episódio de Tulsa King (Paramount+), somos apresentados a Dwight “O General” Manfredi, interpretado pelo incrível Sylvester Stallone. Deixando de lado o fato de ele ser um capo da máfia com todos os estereotipos de mafiosos/gangsters (porque aqui não sou juiz e sim analista de comportamento), o que vemos é um experimento fascinante de resiliência e plasticidade cerebral. Após 25 anos de lacuna social, Dwight sai de 1997 e cai direto em 2022.
1. A Biblioteca como Trincheira:O Poder da Leitura na Sobrevivência Cognitiva
Dwight não passou mais de duas décadas apenas contando as rachaduras no teto ou se lamentando pelo ocorrido. Ele leu e treinou sua mente. E aqui entramos no conceito de Mihaly Csikszentmihalyi sobre a preparação para a criatividade. Em seu livro Creativity, Mihaly explica que a criatividade não nasce do vazio; ela exige a absorção de informações de um domínio.
Ao manter a mente ocupada com literatura, história e filosofia, Dwight construiu o que a neurociência chama de reserva cognitiva (capacidade do cérebro de improvisar e encontrar caminhos alternativos para realizar tarefas, funcionando como um “estoque” de ferramentas mentais).
Por exemplo, o general não conhecia o Uber ou aplicativos, mas conhecia a natureza humana. Quando ele sai da prisão, sua educação formal (ainda que autodidata) serve como escada para sua nova vida. Ele não é um “ex-detento ignorante”; ele é um estrategista em busca de novos campos de batalha.
2. Small c, Grandes Resultados: Criatividade Cotidiana em Tulsa King
Muitas vezes pensamos na Criatividade (com “C” maiúsculo) como algo que muda a história da arte ou da ciência. Mas Csikszentmihalyi destaca a “small c” creativity como a capacidade de resolver problemas cotidianos de formas inovadoras.
Em Tulsa, Dwight enfrenta o “choque do novo”. A cena em que ele tenta pagar tudo com maços de dinheiro vivo e descobre que o mundo agora gira em torno de cartões de débito é emblemática. Sua adaptação não é lenta; ela é cirúrgica. Ele não lamenta a dificuldade do uso do dinheiro físico; ele aprende a usar o sistema. Como diria Sêneca em A Sabedoria dos Estoicos: “A vida é curta, mas o infortúnio a torna longa”. Dwight escolhe encurtar seu infortúnio adaptando-se às ferramentas disponíveis, transformando obstáculos tecnológicos em meros protocolos de rotina.
3. Persuasão na Era Digital: O General e as Armas da Influência
Mesmo em 2025, os gatilhos mentais descritos por Robert Cialdini em As Armas da Persuasão continuam idênticos aos de 1997. Dwight utiliza o gatilho da autoridade e da reciprocidade de forma magistral.
Ao entrar na loja Higher Plane e “oferecer proteção”, ele está aplicando uma lógica antiga em um mercado ultra-moderno. Ele lê o ambiente, identifica as vulnerabilidades (a falta de segurança bancária e sistemas de câmeras de segurança para os negócios de Bodhi) e vende uma solução. É o comportamento adaptativo em seu estado mais puro: ele não muda quem ele é, ele muda a aplicação de quem ele é para o contexto atual.
4. Resiliência Estoica: Como Dwight Manfredi Enfrenta o Choque da Modernidade
Para muitos, Dwight seria um anacronismo ambulante, uma piada em Tulsa. Mas ele mostra o que Brené Brown discute em A Coragem de Ser Imperfeito: estar “na arena”, vulnerável ao novo, sem garantia de sucesso.
Ele tropeça na tecnologia, se perde nas gírias e lida com a determinação de uma “família” que o traiu, o isolamento em Tulsa.
Mas Manfredi não quebra, ele se adapta. Sua resiliência é quase redundante, é resiliente ao quadrado. O saber acumulado é o alicerce que impede seu ego de desmoronar diante da modernidade.
Conclusão: O “Mindset” do General
Dwight Manfredi nos ensina que o mundo pode mudar, a tecnologia pode avançar e o dinheiro pode virar digital, mas a curiosidade intelectual e a capacidade analítica são as verdadeiras garantias de sobrevivência.
Se você se sente perdido com a IA, com o novo algoritmo ou com mudanças corporativas, lembre-se do General em Tulsa: ele não tinha um iPhone, mas tinha conhecimentos arquivados em sua cabeça e uma vontade inabalável de não ser irrelevante. Às vezes, um pouco de humor ácido e um “partir pra cima” (metafórico, claro) são as melhores ferramentas de gestão de mudança.
Referências Bibliográficas Consultadas:
CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly. Creativity: Flow and the Psychology of Discovery and Invention.
CIALDINI, Robert B. As Armas da Persuasão 2.0.
SÊNECA. A Sabedoria dos Estoicos (Org. Hazlitt).
BROWN, Brené. A Coragem de Ser Imperfeito.
Escrito por Elisa Delatore: Observadora atenta a detalhes que passam despercebidos. Escrevo para quem quer tirar a mente do piloto automático e redescobrir o encanto (e a estratégia) por trás das experiências banais.
Até a próxima descoberta, “familia”!
P.S.: Qual foi a última coisa “banal” que te deu um estalo de criatividade ou que fez perceber o quão resiliente você é?
Me conta nos comentários, adoraria saber se você teve o seu próprio ‘momento Dwight Manfredi’ hoje!







Comentários